Explicação Bandersnatch | Black Mirror – Qual é o fim? É uma simulação?

“Bandersnatch” é um material interativo lançado pela Netflix na última sexta feira (28/12/18) e que faz parte da famosa franquía Black Mirror, porém, não integra nenhuma das temporadas da série e não é sequer chamado de episódio ou filme, simplesmente de “Um evento Black Mirror“. 

A história se passa em meados da década de 80 e leva ao espectador a história de Stefan Butler, um jovem de 19 anos que resolve adaptar para os games o livro “Bandersnatch” do escritor fictício Jerome F. Davies. Porém no meio da sua jornada de criação, as coisas saem do controle e Stefan passa a questionar o que é real e o que não é. CARA, ISSO É MUITO BLACK MIRROR! (desculpa, não consegui me segurar hehe.)

 Antes de começar com as teorias, você precisa saber de algumas coisas para se situar no cenário da história:

O Jogo “Bandersnatch” realmente existiu.
Nos anos 80, a empresa Imagine Software anunciou que revolucionaria a indústria dos jogos com o “Bandersnatch”, porém, a mesma acabou falindo e o jogo nunca foi lançado, ao menos não com o mesmo nome. Mais tarde, a Sinclair Research Ltd. comprou os direitos de “Bandersnatch” e reutilizou partes dele para anunciar o “Brattaccas”. O  novo jogo foi lançado em 1986, mas não obteve muito sucesso.

Relações com as obras de Lewis Carroll.
“Bandersnatch” também é o nome de uma criatura criada pelo escritor Lewis Carroll, autor dos livros “Alice no país das maravilhas” e “Alice Através do Espelho e O Que Ela Encontrou Por Lá”. Charles Broker, o roteirista de Black Mirror, utilizou muito da obra original de Carroll pra compor a sua própria, tenha isso sempre em mente enquanto tenta entender “Bandersnatch”. 


Philip K. Dick –  o pai da ficção científica.
A polêmica história do escritor fictício “Jerome F. Davies” que aparece em Black Mirror foi inspirada na vida do escritor “Phillip K. Dick”, considerado por muitos como o pai da ficção científica. O Dick escreveu livros sobre realidades paralelas, viagens no tempo e muito mais, ele também lidava com algumas questões psicológicas e dizia estar sendo observado o tempo todo. Philip K. Dick acabou “enlouquecendo” e passou seus últimos dias abraçado ao delírio, jurando que conseguia viajar no tempo e viver outras vidas.
A história nos soa familiar porque é exatamente o que acontece com o Jerome F. Davies e também com o próprio Stefan Butler durante o período que assistimos “Bandersnatch”.

curiosidade: O Colin, um dos personagens chave dessa história de Black Mirror tem como decoração um poster de uma das obras de “Philip K. Dick”, o que reforça a ideia de inspiração.


Pronto, agora que já te expliquei as coisas básicas,
Vamos lá!

Teoria de controle e observação do Governo.

A partir da minha análise e pesquisa, concluí que todos os personagens estão sendo controlados e observados o tempo inteiro. Isso se confirma durante uma cena em que Stefan acorda no meio da noite e encontra evidências no escritório de seu pai que comprovam que durante toda a vida dele, estavam o observando e registrando seus passos. Isso pode ser relativo, considerado até apenas como um sonho, afinal, não existe uma linha narrativa linear, uma vez que a história contém diversas realidades acontecendo ao mesmo tempo. Porém, acredito que essa seja a narrativa principal, dado que desde o começo, antes mesmo de começarem as escolhas do espectador, vemos o pai do Stefan fazendo coisas que sustentam a teoria de que ele controla o garoto. Como por exemplo : Trancando o escritório logo após sair; Alimentando o Stefan sempre que possível; Ficando irritado quando o menino não come e também o levando para a clínica psicológica quando o filho começa a ter pensamentos de maneira independente. Nos levando a acreditar que o pai controla Stefan através da alimentação, colocando substâncias que deixam o menino “anestesiado” da realidade.



Outra coisa que reforça a ideia de controle é a cena em que Stefan e seu pai estão viajando até a clínica e a música “Making Plans For Nigel” toca no rádio. A tradução da música é  “Estamos fazendo planos para o Nigel, só queremos o que é melhor para ele”.
(Chega a dar arrepios, né?!)


Então quer dizer que pai e o restante das pessoas estão controlando e impedindo que o Stefan conheça a verdade sobre sua vida ? É bem provável, porque uma vez que a verdade está lá fora, não há como se livrar dela. Então pra manter a ordem, você precisa seguir as regras.

No começo da história, o pai do Stefan pergunta se o garoto havia encontrado o livro “Bandersnatch” nas coisas da mãe dele, que havia falecido em um acidente de trem. Sim, foi nas coisas dela que ele achou. Eu não tinha prestado muita atenção nesse detalhe, mas acabei percebendo que poderia ser uma grande pista sobre a possibilidade da mãe de Stefen ter desobedecido as leis de controle que estavam aplicando à ela. Com sua morte, a mãe estaria se libertando daquela realidade e desejava libertar o filho também. essa teoria pareceu ainda mais real quando a mãe declara que não conseguiria pegar o trem que sairia da estação às 8h30, então teria que ir no das 8h45. A personagem repete o número diversas vezes e troca olhares estranhos com o pai do garoto, o que eu achei bem fora do comum para estar na cena à toa. Então, uma rápida pesquisa no Google me revelou que “8h45” na verdade é : João 8:45 – Um versículo da bíblia.  (Sempre tem que ter referência da bíblia né mores, não pode faltar hehehe)

“ Vós pertenceis ao vosso pai, o Diabo; e quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi assassino desde o princípio, e jamais se apoiou na verdade, porque não existe verdade alguma nele. Quando ele profere uma mentira, fala do que lhe é próprio, pois é um mentiroso e pai da mentira. 45 Mas, porque Eu digo a verdade, vós não credes em mim. 46Quem de vós pode me condenar por algum pecado? E, se Eu estou dizendo a verdade, por que vós não credes em mim? …”

Interpretei essa citação da bíblia como se a mãe de Stefan estivesse dizendo pra ele, de alguma maneira, que ela tinha a verdade e que não era para o garoto acreditar em nada do que o pai dele dizia, pois era mentira.

Eu posso ter viajado um pouco na minha interpretação, mas fez sentido de acordo com o que os personagens nos dizem o tempo inteiro por meio do roteiro, você precisa  “repetir”, “voltar”, “tentar de novo” e “entender” o que está escondido no meio das cenas.

“Bandersnatch” é basicamente um looping infinito e é esse o conceito que você precisa sacar pra entender o desenvolvimento da história.
Os personagens se encontram presos em um ciclo de repetições, vivendo nesse mundo horroroso e controlado pelo tempo em que estiverem vivos. Inclusive, você fica preso nesse ciclo de repetições enquanto tenta dar um fim a narrativa dos personagens, porém, a história termina exatamente onde começou, pois será infinita. O que muda é a sua percepção nos detalhes que a história te dá e você interpreta.

Uma das primeiras cenas de “Bandersnatch” é do apresentador de televisão avaliando o novo jogo do Colin, o programador famoso da mesma empresa que o Stefan foi contratado. E o apresentador diz que o jogo é uma curva de aprendizados e que você precisará jogá-lo várias vezes -repetidamente- até  ser capaz de entender . O próprio Colin também reforça essa ideia quando conta sobre o jogo “Pacman”.
A teoria dele é que estão todos presos em uma realidade em que não importa o que eles façam, sempre voltarão para o mesmo lugar, como o Pacman, que corre no labirinto tentando encontrar a saída, para quando encontrá-la, apenas voltar para a entrada do mesmo lugar.

Essa teoria explica o desaparecimento de Colin durante algumas versões da história, por conta de ele estar sempre viajando entre as realidades, Colin se libertou das regras e entendeu como seu mundo funciona. Inclusive, os jogos dele são baseados nas experiências que ele viveu em outras realidades, como por exemplo o novo jogo que Colin mostra para Stefan quando o garoto está conhecendo a empresa, que é uma clara referência a cena em que ele pula da varanda com o amigo.

Na mesma cena em que o Colin tá “loucão de LSD” e revela a verdade sobre o mundo para o Stefan, ele também diz que o mundo é feito de números e que consegue sentí-los o tempo inteiro. Conhecendo o universo de Black Mirror, é bem provável que ele tenha dito isso pois sabe que está em uma simulação, uma realidade virtual que acontece em paralelo com as inúmeras outras, assim como aconteceu em “San Junipero”, episódio da 3ª temporada da série. Por coincidência (ou não), a clínica que Stefan frequenta é chamada de “Saint Junipero’s Medical Practice”, o que poderia ser apenas uma referência ao episódio ou uma indicação de que os personagens realmente estão em uma simulação.

Será que as duas histórias se passam no mesmo universo? Afinal, San Junipero também toma como cenário a década de 80. Faria todo sentido, né?! Mas isso fica ao seu critério para decidir o que acha.
Ficou curioso e quer saber mais? Assista ao vídeo que está no início dessa postagem e confira  algumas curiosidades e teorias sobre o “evento”.

Black Mirror – Bandersnatch está disponível na Netflix.

One Reply to “Explicação Bandersnatch | Black Mirror – Qual é o fim? É uma simulação?”

  1. Excelente explicação. Abriu meus olhos para muita coisa. Já assisti esse filme duas vezes e a cada vez é sempre interessante. Só não entendi o motivo de algumas cenas serem vistas por dois aparelhos de TV e repetidas umas nove vezes.

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